Lágrimas

Lágrimas são instrumentos de uso exclusivo dos humanos, cuja finalidade é abrandar as situações que lhes causam desconforto.

Existem as lágrimas emocionais que são as queridinhas de todos, mas é sobre as lágrimas do sofrimento que abordaremos.

Lágrimas são dores e emoções transformadas em estado líquido, são palavras derramadas.

Lágrimas servem para consolar lamentos, às vezes grandes, às vezes longos. São úteis também para suavizar a saudade d’aquele que ficou enquanto o outro partiu.

Lágrimas são remédios naturais que nascem e permanecem atentas, para qualquer momento se lançar em defesa d’aquele que ao ser atingido diante da vida, perde o rumo, e elas lhe auxiliam enquanto rolam com delicadeza e sabedoria, mesmo que a vítima queira evitá-las, elas não permitem lhe deixar sozinho. Como um companheiro que jamais abandonará o amigo, ainda que tenha que carregá-lo.

Lágrimas, com toda sua pureza cristalina, são capazes de reumanizar depois da mais severa perda. Lágrimas fazem parte do homem.

Há, no entanto, na historia da humanidade, um período em que as Lágrimas se esvaziaram e se entristeceram tanto, que perderam a sua principal função: – A de recompor o homem.

Em Auschwitz – A miséria, a humilhação, o vazio, a subtração de vidas num vai e vêm, as agressões físicas e morais, o trabalho forçado, a morte insensata de familiares e amigos, a fome permanente, o campo de extermínio, o genocídio, fazem com que as Lágrimas se distanciem da sua poesia, pois não estão acostumadas a socorrerem tantas desilusões ao mesmo tempo para um mesmo par de olhos.

Não há Lágrimas em Auschwitz, elas se recolhem, não por medo ou covardia, mas porque estão enfraquecidas, pois as Lágrimas também carecem de energia para desempenhar seu papel neste mundo de horror, mas a continuada inanição somada a tanta brutalidade acumulada, fazem com que em delírio as Lágrimas respondam a pergunta de Primo Levi:

Aquilo talvez não seja mais um homem”, as Lágrimas em seu último suspiro, morrem.

Jamil Buzar Filho