Mistérios de Clarice por Edmílson Caminha

São poucos, no Brasil, os autores que, pelo gênio criativo e pela excelência do que escrevem, seriam grandes em qualquer literatura, mesmo naquelas a que pertencem Shakespeare, Cervantes, Goethe e Proust. Se tivéssemos de escolhê-los, a maioria dos leitores certamente elegeria Machado de Assis, Guimarães Rosa e Clarice Lispector, sem desmerecimento, é claro, para outros nomes que constassem nas cédulas de votação. Difícil, porém, ganhar do estilista de Memórias póstumas de Brás Cubas,Quincas Borba e Dom Casmurro; do mago inventor de Sagarana e de Grande sertão: veredas; do abismo cósmico que gerou A maçã no escuro e A paixão segundo G. H.

Para que não sejam essas obras privilégio apenas de alguns eleitos, minha filha Mariana Caminha, gerente de comunicação e diplomacia pública da Embaixada do Reino Unido em Brasília, organizou com os colegas um “Book Club”, em que se trocarão ideias sobre livros brasileiros de importância. Convidou-me (sob o risco da clara demonstração de favorecimento paterno) para mediar o primeiro encontro do grupo, em 2014. Reunimo-nos ao ar livre, no jardim da bela representação britânica, em mesinhas ao redor de uma grande amendoeira.

Didaticamente, observei a cronologia dos estilos de época: o barroco de Gregório de Matos, o arcadismo de Tomás Antônio Gonzaga, o romantismo de Castro Alves e José de Alencar, o parnasianismo de Bilac, o realismo de Machado e de Lima Barreto, o naturalismo de Aluísio Azevedo e Adolfo Caminha, o modernismo de Mário de Andrade, Bandeira, Drummond, Rachel, Zé Lins, Graciliano, Jorge Amado, Rosa… e Clarice.

Nascida Chaya Pinkhasovna Lispector, essa ucraniana faz-se Clarice ao chegar à brasileira Maceió, com apenas dois meses de idade. Três anos e meio depois vai para o Recife, e de lá para o Rio de Janeiro, onde será mulher, mãe, jornalista mas, sobretudo, escritora. Inteligente, bonita, elegante, os olhos puxados, a boca sensual, com o charme dos erres arrastados pela língua presa, despertou mal disfarçada paixão em Fernando Sabino (com quem trocou bela correspondência, reunida em Cartas perto do coração), mas não (infelizmente, para ela) em Lúcio Cardoso e Paulo Mendes Campos, que lhe despertaram interesse.

Ao pé da amendoeira, conversamos sobre a contista primorosa de “Felicidade clandestina”, “Os laços de família”, “Feliz aniversário”; sobre a admirável romancista de O lustreA cidade sitiadaA hora da estrela (o menos “clariceano” dos seus romances)… e, também, sobre o fascínio da autora pelo mistério, pelo transcendente, pelo que foge à compreensão racional. Nádia Batella Gotlib nos dá a conhecer emClarice: uma vida que se conta: “De fato, há hábitos seus ligados a superstições e crendices. Acreditava no poder de certos números, como o 5, o 7 e o 13. Pedia a Olga Borelli, que lhe datilografava os textos, para contar sete espaços nos parágrafos. E para dar jeito de terminar um determinado texto na página 13. Acreditava em certos avisos, como folhas secas caindo e penas de pombo lhe aparecendo inesperadamente. Ia com certa regularidade a uma cartomante que se chamava D. Nair e morava no Méier.”

Lembrei aos colegas de Mariana que Clarice chegou a participar em 1975, do 1° Congresso Mundial de Bruxaria, na Colômbia. Sobre o tema “Literatura e magia”, resolve não ler as páginas que escrevera: em versão menor, introduzirão a leitura que alguém fará, em espanhol, de “O ovo e a galinha”, por ela anunciado como “uma espécie de conto, que é misterioso mesmo para mim e tem uma simbologia secreta”. Antes, uma solicitação: “Eu peço a vocês para não ouvirem só com o raciocínio, porque, se vocês tentarem apenas raciocinar, tudo o que vai ser dito escapará ao entendimento”. E o auditório começa a acompanhar, em absoluto silêncio, “o conto mais hermético, mais incompreensível e, ao mesmo tempo, compreensível, envolvente”, segundo a própria autora: “De mañana en la cocina, sobre la mesa, veo el huevo. Miro el huevo con una sola mirada. Inmediatamente advierto que no se puede estar viendo un huevo. Ver un huevo no permanece nunca en el presente: apenas veo un huevo y ya se vuelve haber visto un huevo hace tres milenios.” Acabada a leitura, todos, de pé, aplaudem Clarice, transfigurados pela história mais sentida do que compreendida, como se fora emoção em estado puro, que prescinde dos códigos para ser vivida, porque se basta a si mesma. Um dos poucos brasileiros testemunhas daquela comunhão epifânica, em Bogotá, foi o jornalista e escritor Ignácio de Loyola Brandão, à época editor da revista Planeta.

“Clarice era mesmo esotérica, sensível ao que vai além da razão humana”, comentei com o pessoal da embaixada. Foi quando a brisa, mansa e fresca, transformou-se em um pé de vento impressionante, a balançar a amendoeira, com dezenas de frutos caídos sobre os que nos abrigávamos à sua sombra. Questão de segundos: assim como chegou, a ventania se foi. Entreolhamo-nos admirados, com a certeza de que Clarice nos pregara uma peça: “Viram do que sou capaz? Nas profundezas do cosmos, senti que falavam de mim, e voltei disfarçada de ar, uma das formas que assumem os que já nos eternizamos…”

Lembrei-me, então, do que, sábio como soem ser os poetas, escreveu Drummond ao chorar a morte da amiga, em 9 de dezembro de 1977, um dia antes de completar 57 anos: Clarice / veio de um mistério, / partiu para outro. / Ficamos sem saber a / essência do mistério. / Ou o mistério não era essencial, / era Clarice viajando nele.

Por Edmílson Caminha

Nosso muito obrigado ao amigo Caminha pela belíssimo texto.