Lançamento do livro “Os Aliciadores”

Os aliciadores CAPAAutores: Lourenço Dutra

Editora: Pulp BSB

Data: 04 de Agosto.

Horário: 18h:30min

Local Livraria Sebinho 406 bloco C Asa Norte.

Entrada Franca!

Em Os Aliciadores, o destemido Lourenço Dutra expõe, de maneira ácida e sem quaisquer subterfúgios, práticas do universo político não só entendidas como críveis, mas bem sabidas como reais.

Uma viagem a trabalho rumo ao interior baiano poderia ser trivial, não fosse a profissão dos viajantes. No exercício de uma tarefa compreendida como um composto de amoralidade e imoralidade, Alberto e Dioclécio partem do Distrito Federal rumo a um local quase que esquecido pelo poder público, mas tomado por poderosos. Na pacata interiorana cidade baiana de Ibotirama do Leste, o objetivo é angariar aqueles que muitos dos homens com pretensões na esfera política gostariam de poder dispensar: eleitores.

Relembrando uma prática adotada nos idos tempos de República Velha, quando o voto era aberto, a ideia de montar um curral eleitoral próprio, nas recém-povoadas terras do Distrito Federal, parte dos envolvidos na campanha do candidato a governador Jorge Boriz. A negociação, como nos tempos do coronelismo, segue  bastante simples. É preciso transferir o título de eleitor para o Distrito Federal e votar no idealizador e provedor das mudanças que acontecerão na vida desses votantes. Assim, virá o recebimento de um lote, o repasse de materiais de construção e quem sabe até um emprego na cidade de Itapoã do Planalto?

Ainda em construção, em Itapoã do Planalto não faltará hospitais nem creches. Já até mesmo existem postos de saúde e algumas escolas prontas. As delegacias serão construídas e tudo terá grandes motivos para funcionar de forma satisfatória. Nada daquilo que anda sempre desandando em vários lugares do país será um problema na nova cidade prometida pelos aliciadores. Quais poderiam ser as desvantagens de tal proposta?

O cenário desesperançoso de Ibotirama do Leste e a exposição das mazelas de sua população evidenciam o trágico. Dessa forma, o pequeno município vale a contemplação literária, já que é a presença de grupos e figuras muito interessantes que o constrói. Grupos de sem-terra persistem nas zonas rurais. Ciganos acampam por aquelas bandas. Gaúchos migraram com o objetivo de produzir riqueza naquelas terras. Os políticos da cidade e suas esposas – no estilo mais machista da representatividade feminina nos cargos de poder – se enxergam como os donos dela. É lá que mora o dono do bar mais rock n’roll do Vale São-Franciscano da Bahia, Melquíades, que, entre cervejas e frangos a passarinho, cuida para que seus clientes não deixem de apreciar artistas como Janis Joplin U2 enquanto se divertem em seu estabelecimento. De perto de outro rio, o Leine, vem Hanna, uma alemã de Hannover que chega para mexer com os anseios velados do protagonista Alberto, que, de longe, tenta fingir acreditar num casamento terminal.

A personalidade dos aliciadores – um mais sóbrio e sisudo e outro mais inconsequente e desenfreado – evidencia o cômico. Alberto é o contrapeso das loucuras de Dioclécio. É, talvez, um “trabalhador” com modos acertados numa posição, no mínimo, estranha. Já Dioclécio é um sujeito com modos grosseiros numa posição que lhe assenta muitíssimo bem. Parafraseando o dito popular em voga: Como o grande “sem noção” que é, nunca falhou na tentativa de encontrar confusões e de causar um tumulto.

Devido, majoritariamente, à personalidade de Dioclécio, situações inusitadas são vividas diuturnamente pelos aliciadores. Essas confusões pelas quais os enviados às margens do Velho Chico pela organização do candidato Jorge Boriz passam são narradas de maneira tão fluida e divertida que é incômodo precisar interromper a leitura. Como um produto construído a partir de retalhos, a mescla constante de ficção e realidade, não poderia ter resultado uma obra mais pertinente: áspera, mas coesa; fracionada, mas completa.

Para quem conhece o autor, a escrita de Lourenço Dutra parece intuitiva, como uma documentação para a contemporaneidade e para a posterioridade do temperamento e das convicções dele. A necessidade de catarse é evidente: assim, por meio das palavras, ele compartilha suas indignações e suas angústias. Isso, claro, sem nunca perder a piada, com inteligência e sarcasmo.

Leva-se a sensação de que mais gente compartilha das mesmas indignações e angústias que o autor: da forma como é, não há fim para a crise ética instalada na sociedade brasileira.

Por Camila Almeida.

 O autor:
Lourenço Dutra nasceu em Brasília no dia 21 de dezembro de 1963, filho de pais que vieram tentar a sorte na então nova capital brasileira. Dentre suas publicações estão seus livros de contos: O destino de um certo Frank Zappa (ARTEPAUBRASIL, 2009), Cerrados, frevos e minuanos (LER Editora, 2012); seus romances: Berlin Discos (LGE Editora, 2011) e  Diário de um limpador de janelas (Ler Editora, 2015).