Vencedores do Concurso de poemas – Dia D 2018

Modalidade: Público Geral

1º Lugar

Jorge Amâncio

NO MEIO DO CAMINHO

poema de Drummorro

Há um Drummond no meio do caminho,

quaisquer que forem os olhares,

no meio do caminho há um Drummond.

Um homem branco com óculos de poeta

chamado Carlos, tinha de ser carioca

nascido em Itabira nas terras de Gerais.

Magro funcionário inventor de José

que também era magro e agora, José

é amigo de todos guardado a sete chaves.

Há um Drummond no meio do caminho,

na nota de cinquenta cruzados novos.

No meio do caminho há um Drummond,

na voz do negro mineiro chamado Milton

nascido carioca, no bairro Tijuca do Rio.

Há um Drummond no meio do caminho,

num banco do calçadão de Copacabana.

Por que tiram os óculos de Drummond?

2º Lugar 

Lia Miranda

CORPO

Queria um livro com braços

dedos mãos

letras mornas

pulsantes.

A língua vivente.

A morte não existe

(ela está por toda parte).

As línguas se unem, acesas,

multiplicam-se

(a morte não existe).

A foice decepa uma orelha,

um dedo

viver é uma amputação.

 

O poema é a carne virada em verbo

que tem como anseio

voltar a ser carne.

 

Pela cisterna rota a água escorre

o óleo, o bálsamo,

a letra

não valem os braços,

os dedos

as mãos.

3º Lugar 

Igor de Mendes Rodrigues

A Sinfonia Cósmica

Eu ouço o som dos pássaros cantando

E as folhas secas se quebrando

Eu ouço as gotas de chuva caindo no asfalto em um estalo

Como lágrimas de felicidade

Ouço as flores se abrindo,

Erguendo suas pétalas como braços

Em um abraço

Ao concreto da cidade

Com o som dos carros

Passando com o som do charuto queimando

E a conversa dos velhos sobre o mundo

Numa banca de jornal,

Com o barulho das notícias folheadas

Contando sobre o que aconteceu com o ônibus na parada

E a vidraça quebrada

Por uma bola no quintal

Ouço o som das cartas no correio

Escrevendo desejos como pedidos de natal

Eu ouço o choro dos bebes ao nascer

E o ultimo suspiro, de quem chegou ao final

Ouço tal qual,

O som do cheiro de queimado na cozinha

Pela menina que agora chora sozinha

Pensando sobre o futuro

E o seu primeiro beijo encima do muro

Torcendo ter sido suficientemente escondido dos vizinhos

Os mesmos que agora choram sozinhos,

Na madrugada de suas casas

Pensando sobre o passado

E se arrependendo de ter deixado

Todos os sonhos bonitos de lado

Eu ouço o uivo dos jovens malucos

Cortando as calçadas com promessas de liberdade

Eu ouço sua idade explodindo em cores e murros de genialidade,

Desafiando os mitos

Eu ouço suas dores

Eu ouço seus gritos

Eu ouço o grunhido dos vícios pedindo a deus por piedade

Eu ouço a conversa do malandro sussurrando malandragem

Eu ouço o fim do mundo chegando

E o último tic-tac do relógio

Quebrando a engrenagem

Ouvindo o som das estrelas,

Caindo faíscas e cometas

Dos vulcões explodindo cor de ameixa

Ouvindo os lábios sorrindo

Escorrendo esmalte vermelho rosa

E o estampido dos números quebrando a ordem da lógica

Com maestro ensandecido suando horas a fio

As delícias do perigo

Da

Sinfonia cósmica

Mag

 

Modalidade: Estudante

1º Lugar

Serena Franco Moreira

Noite de lábios desertos

Todavia um lábio estranho me beija a face
Me beija a bochecha, a pele, os músculos por baixo
E todas as outras partes que partiam depressa de mim
Junto à procissão de fantasmas que me transpassavam rápido

Mas em razão da hora a rua se fez vazia:
Estava eu parada naquela calçada, e queria me mover. Mas não movia
E pensava em todos aqueles problemas que queria esquecer. Mas não esquece
Em vez disso ficava parada naquela calçada
Pensando em mil coisas, inclusive em nada

Meus pés queriam mesmo era andar para longe
Andar como sempre andavam e eu andava mesmo precisando de um tempo, de férias
Andava querendo descanso, andava precisando ouvir algo, qualquer coisa

“O sol já vem amanhã querida – Não tenha medo.
Tem sido um longo inverno solitário”.
Levantei os olhos ao escuro:
E era realmente frio e solitário. Mas não era inverno

De uma hora pra outra tive aquela vontade repentinamente louca e absolutamente
Incontestável de ver voando no céu um submarino amarelo
E na rua nascendo campos e campos de morangos repletos
Mas aquela era uma ideia absurda:

Obviamente naquela hora
Naquela noite
Naquele frio
Não haveria qualquer morango
Muito menos campos:
Eles estariam completamente desertos

 

2º Lugar

Gabriel Alexandro Barreto Pagliuso

Monólogo de confidência do brasiliense diante da rosa do povo

Em uma tarde como esta
que carrego como, se primitivo fosse,
carregaria o maxilar de meu falecido pai,
a banalidade das coisas se impõe
como um fato, acre certeza
com modos de morango mofado.

Eis então que te descubro,
poeta, pejado na estante, também pejada (de livros)
escondido com a itabirana cabeça baixa de sempre,
penso, entre nomes menores que o teu.

Meus olhos ardem de beleza
enquanto perscruto e escuto os fonemas
o significante e o significado
das letras inaugurais que gritam:

“A ROSA DO POVO!”

Cada pequenino signo
lanhado a tinta na capa
reúne interiores de espelho
nos quais sangram as labirínticas
linhas do ventre rubro das rosas.

Todo o caldo da cana abstrata
de tua arcaica lavoura poética,
que certamente seria apreciado
na viçosa, todo esse caldo, poeta
entorna e se torna rosa.

Rosas, pois que, em ti,
duas disputam uma inexistente hegemonia,
suavemente se enlaçam e formam um terceiro tom.

Sim, duas rosas:
a pudica rosa que escondes,
e que por ser teu fundo sem fundo
mostras apenas aos teus,
e a rosa que despes e gritas,
quando cruamente te expões nos jornais,

rosa essa que silencia sem suas volutas,
as lamúrias dos oprimidos;
é uma rosa-flor nascida na rua,
entre a aspereza do asfalto e a imaterialidade do ar
entre a vida besta e os inocentes cosmopolitas do Leblon
entre o sentimento e a máquina do mundo.

Já me afogando nesse mar
de tinta telúrica e rosiana,
como se penetrasse o reino surdo das palavras
ou buscasse o operário marítimo,
quase esqueço que – o livro, nem sequer o abri.

– eis o mistério do itabirano.

3º Lugar

Luísa Gabriela Ferro da Frota

Areia

Areia
Talvez só areia
Perto do mar, praia
Dentro do vidro, ampulheta
Areia
Antes pedra
Água, vento e tempo fazem areia
Tempo
Constante, eterno
Finito, sincero
A ampulheta marca o tempo
Mostra quanta areia falta pra acabar
Depois pode até vivar a ampulheta,
Mas na vida não há como escapar
Se a areia acaba
O tempo esvai
O corpo volta ao solo
Volta à areia
Até tentamos
Por que tentamos?
Mesmo sabendo que no fim todos se vão
Fazemos loucuras
Afinal enlouquecemos
Nos transformamos em figuras
Que não reconhecemos
A escravidão do eterno tempo
A qual nos submetemos
Areia
Além de tudo, todos querem ser mais uma areia
Um padrão de beleza
Que com toda certeza
É impossível de alcançar
Um objetivo vazio
Pois gostamos de nos matar
Nos matamos toda hora
Mas o tempo não nos dá tempo pra errar
Nos drogamos de várias formas
Só pra esquecer o que foi dito
Com medo de nos lembrar
Mas se virmos nossos defeitos
E os erros que hão de haver
Veremos que somos perfeitos
Pois somos o que devemos ser
Pode ver na etimologia
Perfeito é o completo
Então busque a perfeição

Não a da televisão,
Mas sua própria aceitação.